Aula 03

Ligas-base: latão, zamac e prata 925 — quando cada uma vence

Ligas-base: latão, zamac e prata 925 — quando cada uma vence

Outro dia uma cliente entrou na fábrica em Goiânia, virou um colar nosso na mão e me perguntou: "Patrícia, essa peça é de prata mesmo?". Eu sorri. Não era. Era latão com banho 18k de três microns, como noventa por cento do que sai daqui. Mas a pergunta dela me ensinou uma coisa que eu repito até hoje pras minhas revendedoras: a cliente não está perguntando o nome do metal. Ela está pedindo segurança. E segurança começa quando você sabe exatamente o que tem na mão antes de abrir a boca.

O que é uma "liga-base", afinal

Toda peça de semijoia tem duas vidas. A vida de fora, que é o banho — a casquinha de ouro 18k que a cliente vê e toca. E a vida de dentro, que é a liga-base: o metal que dá corpo à peça, que aguenta o fechamento do mosquetão, o atrito da pulseira no pulso, a queda no chão do banheiro.

Eu costumo dizer que a liga-base é a alma da peça. O banho é o vestido. Vestido bonito sobre alma frágil quebra cedo. Existem três bases que dominam o mercado brasileiro: latão, zamac e prata 925. Vou abrir uma de cada vez.

Latão — a força e o limite

Latão é uma liga de cobre com zinco. É o metal-cavalo da semijoia brasileira, e é com ele que a Herreira trabalha desde que abrimos a fábrica em agosto de 2008.

Por que latão venceu o mercado? Ele é maleável o bastante para a fundição puxar desenhos finos sem rachar. Tem cor amarela quente que deixa o banho com tom morno, parecido com joia maciça. E aceita banho com excelente aderência, desde que a fábrica faça o pré-tratamento direito (você já viu isso na aula de eletrodeposição).

Onde o latão tropeça? Em pele muito sensível. Ele costuma carregar traços residuais de níquel — abaixo do limite legal, mas o suficiente pra incomodar uma minoria de clientes alérgicas. Para essas, latão comum não serve. Por isso, na Herreira, mantemos uma linha hipoalergênica em paralelo, com barreira que isola esse risco.

Zamac — a escolha do mercado popular

Zamac é uma liga de zinco com alumínio, magnésio e um pouco de cobre. É mais leve que o latão, mais barata, e tem uma fluidez maravilhosa no molde — por isso o mercado popular adora zamac em pingente cheio de detalhe.

Mas eu vou ser honesta com você. A Herreira evita zamac na maior parte das peças. E o motivo é técnico, não preconceito.

Zamac é mais frágil. Aceita pancada pior que o latão, tende a quebrar em ponto de solda. E, mais grave, o banho não adere com a mesma firmeza. Por mais que a fábrica capriche no pré-tratamento, a camada de ouro sobre zamac costuma descascar antes que a mesma camada sobre latão. Em peça de uso diário, isso vira reclamação na sua mão, não na fábrica.

Existe zamac de qualidade no mercado. Mas, pra peça de uso diário no ano inteiro, latão é mais leal. É o que eu durmo tranquila vendendo.

Prata 925 — quando vale o premium

Prata 925 é outro patamar. São 92,5% de prata pura misturados com 7,5% de cobre, que entra só pra dar dureza. Por isso ela também é chamada de prata esterlina.

Aqui a história muda. Prata 925 é hipoalergênica por natureza — não tem níquel na composição. Para a cliente que já teve reação em outras peças, prata 925 é o caminho seguro. É o que eu indico de olhos fechados pra quem tem pele difícil.

Prata 925 também é a base de duas peças premium que valem ouro na sua vitrine. A primeira é a peça com banho de ródio sobre prata, que vira a chamada prata branca — aquele branco vivo, espelhado, que não desbota como o ouro branco mais barato. A segunda é o vermeil: prata 925 com banho espesso de ouro 18k. Vermeil é o degrau entre semijoia e joia maciça, e a Herreira tem peças assim na linha alta.

O lado de fora dessa moeda: prata 925 mancha. Reage com enxofre do ar, do suor, de certos cosméticos. A cliente precisa saber disso. Mancha não é defeito — é química. E sai com flanela e produto certo, em cinco minutos.

Como vender cada uma sem mentir

Aqui está o coração da aula. Três cenas que você vai viver muitas vezes.

Cena um. Cliente pergunta: "Essa peça é de prata?". Peça é latão com banho. Sua resposta: "Não, essa é da nossa linha de banho 18k sobre latão. É a base mais comum em semijoia de qualidade no Brasil, e o banho aqui é de três microns — banho grosso, dura anos. Se você procura prata, eu tenho aqui também, posso te mostrar?"

Cena dois. Cliente diz que tem alergia a quase tudo. Sua resposta: "Então eu vou te mostrar duas opções: a nossa linha hipoalergênica, que é latão com barreira pra isolar o níquel, e a linha de prata 925, que é prata pura com cobre — sem níquel nenhum. Pode escolher pelo gosto, que pelo lado da pele você está protegida nas duas."

Cena três. Cliente compara seu preço com a peça de R$ 49 do shopping. Sua resposta: "Aquela ali normalmente é zamac com banho fino de meio micron. Aguenta uns meses. A minha é latão com banho de três microns. O preço é diferente porque o que está dentro é diferente."

Em nenhuma cena você inventa ou omite. Você nomeia. Cliente que ouve nome técnico bem dito se sente em mãos seguras.

Ponte para a próxima aula

Agora que você sabe diferenciar latão, zamac e prata 925, falta entender o que acontece quando a gente coloca ródio sobre essas bases — o banho que transforma prata em prata branca espelhada e que dá um toque de joia fria em peça de ouro branco. Te vejo na aula 4.