O primeiro atelier da Herreira tinha doze metros quadrados. Ficava num bairro tranquilo de Goiânia, num casarão antigo dividido com mais dois inquilinos. A bancada era uma só, herdada de um joalheiro aposentado que me vendeu por dois mil reais e me deu junto três conselhos.
O primeiro: nunca apresse uma peça. O segundo: nunca brigue com o material — escute o que ele pede. O terceiro: não tenha pressa de crescer; tenha pressa de aprender.
O dia que abri
Era agosto de 2008, uma terça-feira de manhã. Tinha vinte e quatro anos e três certezas: queria fazer joia que durasse, queria que cada peça contasse uma história verdadeira, e queria atender olhando no olho. Tudo o resto eu não sabia.
Abri a porta às nove. Coloquei na mesa as três peças que tinha terminado naquela semana — um par de brincos, um colar, uma pulseira. Liguei o exaustor da bancada de banho. Esperei.
A primeira pessoa que entrou foi a Dona Marlene, vizinha do casarão, que veio só para conhecer. Saiu com o colar. Pagou em dois cheques. Ainda guardo a folha do segundo cheque na minha gaveta.
A primeira revendedora
A Cris chegou três meses depois, sem hora marcada. Era cabeleireira no salão da esquina e tinha visto uma cliente minha entrar com brincos que ela achou diferentes. Veio perguntar se eu vendia atacado. Eu não vendia. Não tinha estrutura, não tinha tabela, não tinha nada.
Ela esperou eu ter. Voltou em janeiro de 2009 com um pedido de quarenta peças. Combinamos pagamento em três vezes, tabela rascunhada à mão num caderno de capa azul. Esse caderno inaugurou o que a gente hoje chama de programa de revenda Herreira.
A Cris segue comigo. Hoje atende quase cento e vinte clientes finais em Goiânia, vai para o terceiro salão dela, e quando me liga ainda pergunta: "Patrícia, esse banho aqui tá com cara de quê?" Continuamos conversando da mesma forma.
O que aquele atelier ensinou
Aprendi naquele primeiro ano três coisas que nenhum livro de gestão me ensinou.
A primeira: cliente não compra peça, compra continuidade. Quem comprou o primeiro brinco quer o segundo combinando, quer o pingente do mesmo desenho, quer a aliança quando casar. Sua loja é uma história, não um catálogo.
A segunda: revendedora boa não é vendedora — é tradutora. Ela traduz a sua marca para a realidade da rua dela. Se você der a ela só preço, vai virar concorrente do desconto. Se você der a ela conhecimento, vira sócia.
A terceira: o atelier é um lugar físico, mas também é um jeito de fazer. Mesmo quando a Herreira ficou maior, com fábrica própria e equipe grande, eu insisti em manter o atelier como conceito: cada peça passa por mão humana antes de sair. Cada lote de banho é olhado por um técnico que sabe medir mícron. Cada decisão de coleção começa numa conversa, não numa planilha.
De doze metros para hoje
Saí daquele primeiro atelier em 2012, quando precisei de espaço para a primeira fábrica. Voltei lá uma vez, em 2017, só para olhar. O casarão tinha sido reformado e a sala virara consultório de psicóloga. Achei justo: lá dentro, gente continua escutando gente.
Hoje, dezoito anos depois, a Herreira atende todo o Brasil. A Academy é a forma que encontramos de fazer caber, em texto e em vídeo, o que aquela bancada de dois mil reais começou a ensinar.